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Steve Jobs: a biografia que ele pediu e não leu

Steve Jobs, de Walter Isaacson (2011)

Walter Isaacson conversou com Jobs mais de quarenta vezes e teve liberdade total. O retrato é de alguém genial, e frequentemente insuportável.

Jobs procurou Isaacson, que tinha escrito biografias de Franklin e Einstein, e pediu que escrevesse a dele. Foram mais de quarenta entrevistas ao longo de dois anos, mais de uma centena de pessoas ouvidas, inclusive inimigos, e a promessa de que Jobs não leria nada antes de publicar. Ele morreu em outubro de 2011, e o livro saiu semanas depois. Dá para sentir a pressa em alguns capítulos, mas a liberdade está lá: Isaacson não esconde nada do que ouviu.

A história é conhecida, e ainda assim prende. O bebê adotado, o adolescente em Palo Alto que montava placas com o Wozniak na garagem, a faculdade abandonada, a viagem à Índia, o LSD, a Atari. A Apple dos anos 70 e o Macintosh de 1984, com a equipe trabalhando noventa horas por semana sob um chefe que dizia que a ideia dos outros era uma porcaria e, uma semana depois, a apresentava como sua. A demissão, em 1985, da empresa que ele fundou. A NeXT, que quase não deu em nada, e a Pixar, que deu em Toy Story. A volta em 1997, com a Apple a meses da falência, e tudo o que veio depois: iMac, iPod, iTunes, iPhone, iPad.

O que o livro faz bem é não separar o gênio do defeito. É o mesmo homem que chora em reuniões, estaciona em vaga de deficiente, nega a paternidade da primeira filha e humilha funcionários em público, e que também insiste no detalhe que ninguém vê, recusa produtos bons porque não são ótimos e enxerga o que as pessoas vão querer antes delas. Os colegas chamavam de campo de distorção da realidade a capacidade dele de convencer todo mundo, inclusive ele mesmo, de que o impossível era só uma questão de prazo. Isaacson mostra que isso construiu a Apple e também fez Jobs adiar por nove meses a cirurgia que talvez o tivesse salvado.

É longo, quase seiscentas páginas, e no fim cansa um pouco de tanto produto. Mas a pergunta que fica é boa: quanto do resultado dependeu do lado insuportável, e quanto aconteceu apesar dele. O livro não responde, e eu também não.


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