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1808: a corte que fugiu e fundou um país sem querer

1808, de Laurentino Gomes (2007)

Laurentino Gomes conta como uma rainha louca, um príncipe indeciso e milhares de portugueses fugindo de Napoleão mudaram o Brasil.

Em novembro de 1807, com o exército de Napoleão a dias de Lisboa, a família real portuguesa embarcou em dezenas de navios e fugiu para o Brasil. Foram entre dez e quinze mil pessoas, dependendo de quem conta: a rainha D. Maria I, considerada louca, o filho que governava em nome dela, D. João, a mulher dele, Carlota Joaquina, que o desprezava, e toda a corte, com baús, arquivos, a biblioteca real e o tesouro. Foi a única vez em que um rei europeu atravessou o oceano para governar o império a partir de uma colônia. Laurentino Gomes conta isso como repórter, não como professor, e é isso que faz o livro funcionar.

O relato da viagem é o melhor trecho: navios superlotados, falta de água, piolhos que fizeram as damas da corte rasparem a cabeça e inventarem a moda dos turbantes no Rio, uma tempestade que separou a frota e mandou parte dela para a Bahia. Em Salvador, D. João assina a abertura dos portos às nações amigas, que na prática eram a Inglaterra, acabando com três séculos de monopólio comercial. Chega ao Rio em março de 1808 e encontra uma cidade de sessenta mil pessoas, suja, sem esgoto, que de um dia para o outro precisa abrigar uma corte.

O argumento de Gomes é que a fuga, feita por medo e sem plano nenhum, acabou inventando o Brasil. Em treze anos no Rio, D. João criou o Banco do Brasil, a Imprensa Régia, a Biblioteca Real, o Jardim Botânico, a Academia Militar, as primeiras escolas de medicina. Elevou o Brasil a Reino Unido a Portugal em 1815. Quando voltou a Lisboa, em 1821, deixou o filho Pedro, e no ano seguinte o Brasil estava independente sem ter feito uma revolução. Para o autor, o país é filho dessa acomodação, e ele mostra o que isso custou: a corte que se instalou no Rio não trouxe nada de república nem de igualdade, e a escravidão seguiu intocada.

O livro é leve, com capítulos curtos e muita anedota. Historiador de carreira vai achar superficial, e o próprio autor assume que escreveu para quem não lê história. Para mim foi exatamente isso: aprendi mais sobre o período com ele do que na escola inteira, e saí querendo ler o resto da trilogia.


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