Pular para o conteúdo
Vailati
Voltar

O Poderoso Chefão: o livro por trás do filme

O Poderoso Chefão, de Mario Puzo (1969)

Mario Puzo escreveu para pagar dívidas e acertou. O romance tem tudo o que o filme tem, e também o que Coppola cortou.

A epígrafe é de Balzac: por trás de toda grande fortuna há um crime. Puzo disse que escreveu o livro para pagar dívidas, sem nunca ter conhecido um mafioso, e que se arrependeu de não ter escrito melhor. Não precisava. O livro vende há mais de cinquenta anos porque faz a coisa mais difícil: constrói um mundo com regras próprias e faz o leitor torcer por quem as cumpre.

A história é a que todo mundo conhece do filme. Dom Vito Corleone, chefe de uma das cinco famílias de Nova York, recebe pedidos no dia do casamento da filha. Um traficante propõe sociedade no negócio de drogas, o Dom recusa, e levam cinco tiros nele. O filho mais velho, Sonny, assume e começa a guerra. O mais novo, Michael, herói de guerra que queria distância da família, mata o traficante e um capitão de polícia num restaurante e foge para a Sicília. Volta outro homem. O filme segue o livro de perto, inclusive nos diálogos, porque Coppola e Puzo escreveram o roteiro juntos.

O que o livro tem a mais é espaço. Puzo conta a juventude de Vito na Sicília e em Little Italy, o primeiro assassinato, como o favor virou o sistema de poder dele; o filme guardou isso para a Parte II. Há capítulos inteiros sobre Johnny Fontane em Hollywood e sobre Lucy Mancini em Las Vegas que o filme cortou e que, honestamente, poderiam ter sido cortados do livro também. Mas há também as explicações que faltam na tela: por que o Dom recusa as drogas, como funciona a negociação entre as famílias, o que exatamente Tom Hagen faz como consigliere.

O que mais prendeu foi a lógica. Ninguém ali se vê como criminoso. Vito se vê como um homem que faz justiça num mundo em que a lei não protege gente como ele, e é tão coerente nisso que o leitor compra. A frase sobre a oferta que não pode ser recusada é dita quase com carinho. Michael é o personagem mais interessante justamente porque a gente acompanha o momento em que ele decide entrar e entende cada passo.

É prosa simples, sem pretensão. E, junto com o filme, uma das histórias mais bem contadas sobre poder e família que conheço.


Compartilhe este artigo:

Comentários

Os comentários ficam no GitHub Discussions; entre com sua conta do GitHub para participar.


Artigo anterior
Atlantis: arqueologia de mergulho com tiro
Próximo artigo
1808: a corte que fugiu e fundou um país sem querer