Dostoiévski tranca um homem sozinho com os próprios pensamentos. O resultado se parece demais com a gente.
O livro começa estranho. “Sou um homem doente… Sou um homem mau. Um homem desagradável.” É assim que o narrador se apresenta, e daí em diante é só autodestruição. Um funcionário aposentado, isolado num canto de São Petersburgo, passa a primeira metade do livro falando sozinho: afirma uma coisa, refuta na frase seguinte, volta atrás, e não conclui nada. Parece defeito do texto, mas é o ponto. É a dualidade da nossa cabeça e das nossas emoções posta no papel.
E representa muito. Quem nunca se achou a pior pessoa do mundo e, meia hora depois, ponderou? Quem nunca se achou mau e depois se justificou? Esse é o tormento do personagem, com muito mais profundidade e clareza do que eu consigo organizar os meus próprios pensamentos.
Na segunda parte o livro sai do porão e vira história: um oficial que o ignora na rua e vira obsessão, um jantar com antigos colegas em que ele se humilha de propósito, e a Liza, a quem ele faz um discurso bonito e depois trata mal, só para provar que pode. Tudo que ele teorizou na primeira parte, ele faz na segunda.
E é aí que o livro começa a criticar a sociedade russa daquela época. Fala da banalidade da violência: a civilização deveria amenizar a sanguinolência, mas no fundo só a banaliza, porque a cada momento surgem mais crápulas, e cada vez mais refinados. Dostoiévski chega a dizer que os maiores derramadores de sangue quase sempre foram os cavalheiros mais civilizados.
Apesar de ser de 1864, é muito atual. Só mostra que o tempo passa e as pessoas continuam ruins, obrigadas a tolerar umas às outras por conta das leis, calando os próprios desejos e egoísmos. O homem do subsolo é o que acontece quando alguém para de calar.
Não é um livro agradável. Também não é para ser.
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