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O Alienista: quem decide quem é louco?

O Alienista, de Machado de Assis (1882)

Machado em cem páginas, uma vila inteira internada e a pergunta que não sai da cabeça.

Li O Alienista achando que ia encontrar um conto de época. Encontrei uma piada longa, muito bem contada, com um final que não é piada nenhuma.

A história cabe num parágrafo. O doutor Simão Bacamarte, médico respeitado, decide estudar a loucura em Itaguaí. Constrói a Casa Verde, um hospício, e começa a internar quem apresenta “sinais”. No começo são os casos óbvios. Depois a régua vai mudando: o vaidoso, o generoso demais, o que mente um pouco, o que conta a mesma história duas vezes. Quando quatro quintos da vila estão trancados, o barbeiro Porfírio lidera uma revolta, a dos Canjicas. A revolta dá errado, claro, e o barbeiro acaba governando com o mesmo médico ao lado.

O que me pegou foi o momento em que Bacamarte inverte a teoria. Se quase todo mundo está na Casa Verde, então o normal é ter defeito, e o doente é quem não tem nenhum. Ele solta todo mundo e passa a internar os equilibrados, os honestos, os modestos. E no fim, não achando ninguém mais perfeito que ele mesmo, interna a si próprio. Morre lá dentro, dezessete meses depois.

Machado não explica nada. Não diz se Bacamarte era um cientista sincero ou um tirano de jaleco. O narrador conta com cara séria, com citação de cronista, como se fosse documento. É isso que faz o texto envelhecer bem: a vila troca de critério três vezes e a vila aceita as três. O barbeiro que denuncia o médico pede o apoio do médico assim que vira autoridade. Ninguém ali é mau. Todo mundo só quer saber de que lado da parede vai ficar.

Eu leio esse conto como uma história sobre critério. Quem define a régua manda, e a régua pode ser qualquer uma, desde que venha com vocabulário técnico e um prédio. Em 1882 era a ciência nova da psiquiatria. Hoje a gente tem outras réguas, igualmente seguras de si. Não vou forçar a comparação, mas ela vem sozinha.

É curto, é engraçado, e a última página incomoda.


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