Gregor Samsa acorda transformado num bicho. O assustador é que ninguém, nem ele, acha isso tão estranho.
Todo mundo conhece a primeira frase: Gregor Samsa acorda de uma noite de sonhos agitados e se descobre transformado num inseto monstruoso. O que ninguém avisa é o que vem logo depois. Gregor não grita, não pergunta por quê, não acha que está sonhando. A preocupação dele é que perdeu o trem das cinco e o chefe vai reclamar. É essa a piada do livro, e é também o horror: um homem vira bicho e o primeiro pensamento é o trabalho.
Gregor é caixeiro-viajante e sustenta a família inteira: pai, mãe e a irmã Grete. Odeia o emprego, mas tem uma dívida dos pais para pagar e nunca pensou em parar. Quando vira inseto, não consegue mais trabalhar, e aí a gente descobre que era só isso que ele era para a casa. O pai, que parecia inválido, arruma emprego e volta a andar ereto. A mãe não consegue olhar. A irmã, que no começo leva comida e limpa o quarto, vai cansando. Os móveis saem do quarto, a porta passa a ficar trancada, e Gregor vira um problema que a família administra.
Kafka não explica a transformação e eu acho certo. Não interessa por quê. Interessa a velocidade com que todo mundo se adapta. Em poucas semanas, o filho que pagava as contas é “aquilo” no quarto dos fundos. E Gregor concorda. Ele passa o livro inteiro se desculpando por existir, se escondendo embaixo do sofá para não assustar a irmã, e no fim aceita o veredito da família com uma espécie de carinho. Morre de madrugada, e a empregada varre.
O que me pegou foi a última cena. A família sai de bonde, pela primeira vez em meses, num dia de sol. Os pais olham para Grete, percebem que ela virou uma moça bonita, e pensam que está na hora de arrumar um marido. Alívio. É o final mais cruel que eu conheço, e não tem uma palavra de crueldade nele.
Dá para ler como um texto sobre trabalho, sobre família, sobre doença, sobre o que acontece com quem deixa de ser útil. Todas valem. Eu li como uma história sobre o quanto a gente é amado pelo que faz, e sobre quanto tempo isso dura.
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