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O Estrangeiro: julgado por não chorar

O Estrangeiro, de Albert Camus (1942)

Um homem que não se importa com nada, nem com a morte da própria mãe. Camus mostra o que a falta de sentido custa.

Camus publicou O Estrangeiro em 1942, com 28 anos, no meio da guerra. Ele era um francês nascido na Argélia, pobre, criado por uma mãe quase muda que não sabia ler, e o livro se passa nesse mundo: Argel, o calor, a praia, os bairros de gente simples. No mesmo ano saiu O Mito de Sísifo, o ensaio filosófico dele sobre o absurdo, e os dois foram pensados juntos. O absurdo, para Camus, é o choque entre a nossa necessidade de que a vida tenha sentido e um mundo que não responde. O romance mostra isso no cotidiano de um homem comum. O ensaio explica.

Um homem que não liga

“Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei.” É assim que Meursault abre o livro, e é assim que ele atravessa o livro inteiro. Um homem que não se importa com nada nem com ninguém. A morte da mãe não o abalou, ele nem ligou. Vai ao asilo para o velório, não quer ver o corpo, aceita um café com leite do porteiro, fuma ao lado do caixão e passa a noite com sono. No enterro, o que ele registra é o calor. No dia seguinte vai à praia, encontra a Marie, vão ao cinema ver uma comédia e dormem juntos.

É assim em todos os aspectos da vida dele. Quando a Marie pergunta se ele a ama, responde que isso não quer dizer nada, mas que provavelmente não. Quando ela pergunta se quer casar, diz que tanto faz, mas que casa se ela quiser. Quando o chefe oferece um posto em Paris, responde que a gente nunca muda de vida, que todas valem o mesmo. Não há maldade em nada disso. Meursault não mente, nunca. Ele só não finge que as coisas importam, e é exatamente isso que ninguém à volta dele consegue aceitar.

É aqui que Camus mostra o cotidiano do absurdo: o que a falta de sentido pode causar e custar na própria vida de um homem. Meursault não é vilão nem louco. É alguém que vive como se nada tivesse peso, e por isso vai aonde o dia o leva, inclusive para onde não deveria.

A praia

Por causa de uma briga do vizinho, Meursault acaba numa praia de Argel com um revólver no bolso. Reencontra um dos homens da briga, sozinho, na sombra de uma rocha. Não é raiva nem medo. É o sol, o suor nos olhos, o brilho da lâmina, até que “tudo vacilou”. Ele atira, e depois mais quatro vezes. Um crime banal, sem motivo que ele mesmo consiga explicar. No julgamento, quando perguntam por que atirou, diz que foi por causa do sol.

O julgamento

É o que mais me marcou. Meursault quase não é julgado pelo crime. É julgado por não ter chorado no enterro da mãe, por ter ido ao cinema e à praia no dia seguinte. O promotor diz que ele enterrou a mãe com um coração de criminoso, e isso pesa mais que o homem morto na praia. O sentido da vida e a moral dos outros subjugam a dele, porque para ele nada importava, e a sociedade não sabe o que fazer com alguém assim. No meio da sessão ele percebe que estão decidindo o destino dele sem perguntar nada. Um estranho ali. Daí o título.

O que fica

A história mostra o absurdo da vida, e mostra também que a gente precisa encontrar o próprio sentido para viver da melhor forma. O livro leva direto ao Mito de Sísifo, a obra filosófica de Camus sobre o absurdo: Sísifo sabe que a pedra vai rolar de volta e mesmo assim desce para buscá-la. É preciso imaginá-lo feliz.

É um dos livros mais marcantes que já li. Muitos ensinamentos sobre o que não vale a pena: deixar a vida passar, viver só por viver.


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