Tolstói em cem páginas sobre um homem que fez tudo certo e, na hora de morrer, descobre que não fez nada.
A frase que resume o livro está logo no começo, quando Tolstói apresenta o personagem: a vida de Ivan Ilitch tinha sido das mais simples e comuns, e por isso das mais terríveis. Lida de primeira, parece exagero. No fim, parece pouco.
Ivan Ilitch é juiz. Subiu na carreira fazendo o que se espera, casou com quem convinha, decorou o apartamento como os apartamentos das pessoas certas, e cercou a vida de uma cortesia que não deixa nada entrar. Um dia, pendurando uma cortina, cai da escada e bate o lado do corpo. Dor pequena. A dor cresce, os médicos falam difícil e não dizem nada, e em alguns meses ele está morrendo numa casa em que todo mundo finge que não.
É essa mentira que Tolstói persegue. A mulher, a filha, os colegas, os médicos, todos tratam a morte dele como um incômodo de agenda. Ivan Ilitch percebe, e o que mais dói não é a dor, é ser tratado como se estivesse só doente, quando ele sabe. O único que não mente é Guerássim, o criado jovem que segura as pernas dele por horas, sem nojo, e diz com naturalidade que todos vamos morrer um dia, então por que não ajudar.
Tem uma passagem sobre lógica que me marcou. Ele lembra do exemplo de escola: Caio é homem, os homens são mortais, logo Caio é mortal. Sempre achou certo, para Caio. Mas ele não era Caio. Ele era o Vânia, que tinha mãe, brinquedos, cheiros de infância. Como é que isso vale para ele? É a frase mais honesta que já li sobre o tamanho da nossa negação.
E vem a pergunta final, nas últimas semanas, quando a dor não deixa mais fingir: e se toda a minha vida tiver sido errada? Ele revisa e vê que os únicos momentos bons foram os da infância, antes de começar a fazer o que se esperava dele. O resto, carreira, casamento, apartamento, era o que os outros chamavam de vida.
O fim é curto e eu não vou contar. Só digo que a última linha não é sobre a morte.
Comentários
Os comentários ficam no GitHub Discussions; entre com sua conta do GitHub para participar.