Sêneca escreveu uma carta de vinte páginas para dizer uma coisa só. Dois mil anos depois, ainda não aprendemos.
É uma carta de Sêneca para o sogro, Paulino, que cuidava do abastecimento de trigo de Roma, um cargo importante e que comia a vida inteira dele. O recado é direto: a vida não é curta. A gente é que a torna curta, desperdiçando. Recebemos tempo suficiente para fazer coisas grandes, se soubéssemos usá-lo. Mas gastamos com o que não importa e, no fim, reclamamos que passou rápido.
O personagem do livro é o “ocupado”. É o cara que não tem tempo para nada, porque está sempre a serviço dos outros, de um cargo, de uma ambição, de um compromisso que ele mesmo não escolheu. Sêneca diz que o ocupado é o que menos vive, porque está sempre se preparando para viver. Adia tudo para quando se aposentar, para quando as coisas acalmarem, e aí morre. Quem lê isso em 2025, com agenda cheia e celular na mão, não precisa de muita tradução.
Sêneca diz que o presente é curto, o futuro é incerto, e só o passado é realmente nosso, porque ninguém tira. Mas o ocupado não tem tempo nem para olhar para trás, porque olhar para trás dói quando se gastou mal. Então ele vive só no presente, que escapa, e no futuro, que não existe.
E tem a comparação com o dinheiro, que é a melhor do livro. Ninguém deixa que peguem seu dinheiro, todo mundo briga por um centavo. Mas o tempo, que é a única coisa que não volta, a gente entrega de graça para qualquer um que pedir.
Não resolve nada. Fechei o livro e continuei ocupado. Mas é o tipo de leitura que, de vez em quando, faz olhar para a agenda e perguntar quem colocou aquilo ali.
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