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A Vida Intelectual: duas horas por dia, mas de verdade

A Vida Intelectual: seu espírito, suas condições, seus métodos, de A.-D. Sertillanges (1921)

Um frade dominicano escreveu, em 1921, um manual para quem quer estudar a sério sem largar a vida comum. Quase tudo ainda serve.

Sertillanges era frade dominicano e professor de filosofia em Paris. Partiu de uma carta curta atribuída a Tomás de Aquino, com conselhos a um estudante, e escreveu um livro inteiro sobre como organizar a vida de quem quer pensar a sério. Não é um livro para acadêmicos. É para quem trabalha, tem família e obrigações, e mesmo assim quer dedicar um pedaço protegido do dia a estudar algo até o fundo.

A tese é simples e exigente ao mesmo tempo: duas horas por dia bastam, desde que sejam duas horas de verdade. Sem interrupção, sem dispersão, no mesmo horário, todos os dias. O resto do livro é sobre como tornar essas duas horas possíveis: o silêncio, a solidão, o sono em dia, a recusa de leituras inúteis, a escolha de poucos assuntos em vez de muitos. Ele chama isso de virtudes do intelectual, e a palavra é essa mesma. Para ele, estudar é uma forma de vida moral, não uma técnica.

As partes práticas envelheceram bem. Sertillanges diz para ler pouco e reler muito, para não confundir informação com conhecimento, para fazer fichas de leitura com as próprias palavras e revisá-las, para escrever desde cedo, mesmo mal, porque só se pensa até o fim quando se escreve. Diz que a memória precisa de ordem, não de esforço. E repete que o conhecimento de uma área só vale se estiver ligado ao resto: quem estuda uma coisa só, no fim não entende nem ela.

Tem o lado religioso, que é central para ele e dá para ler de fora. Para Sertillanges, a vida intelectual é uma vocação, no sentido forte, e a busca da verdade é uma forma de oração. Mesmo quem não acompanha isso aproveita o restante, porque a disciplina que ele descreve não depende da fé.

Li e mudou a forma como organizo as manhãs. É o tipo de livro que a gente devia ter lido aos vinte.


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