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Meditações: o imperador falando sozinho

Meditações, de Marco Aurélio

Marco Aurélio não escreveu para ninguém ler. Por isso é o livro mais honesto do estoicismo.

O detalhe que muda a leitura é este: Meditações não é um livro. É um caderno. Marco Aurélio, imperador de Roma, escrevia à noite, em grego, no meio de campanhas militares, lembretes para ele mesmo. Não tem introdução, não tem argumento, não tem ordem. Tem um homem com o maior poder do mundo tentando se convencer, todo dia, a ser decente.

E ele falha, e sabe que falha. É por isso que repete tanto. Ele se lembra de manhã que vai encontrar gente intrometida, ingrata, arrogante, e que nada disso deve pegá-lo de surpresa, porque essas pessoas não sabem o que é bem e mal. Se lembra de que vai morrer, e de que todo mundo que ele conhece vai morrer, e de que daqui a pouco ninguém vai lembrar de nenhum deles. Se lembra de fazer o que está na frente dele, como ser humano, sem drama. O caderno inteiro é isso: lembrar, esquecer, lembrar de novo.

O que me pegou foi a modéstia. É o imperador, e ele passa páginas agradecendo ao que aprendeu com o avô, com a mãe, com os professores, e cobrando de si mesmo coisas pequenas: não ser afetado, não reclamar, não perder tempo com o que os outros pensam. Tem um trecho em que ele diz, mais ou menos, que o que atrapalha o caminho vira o caminho.

O que fica é a sensação de ter visto, por dentro, alguém que não precisava de nada tentando precisar de menos ainda.


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