Pular para o conteúdo
Vailati
Voltar

Manifesto Comunista: ler o original antes de brigar por ele

Manifesto Comunista, de Karl Marx e Friedrich Engels (1848)

Trinta páginas de 1848 que todo mundo cita e quase ninguém leu. Vale ler, seja para concordar ou para discordar sabendo do quê.

Pouca gente leu o Manifesto, e muita gente tem opinião forte sobre ele. Eu também tinha. Li por isso: queria saber o que estava escrito antes de repetir o que dizem que está. É curto e surpreende em mais de um ponto.

O contexto importa. É 1848, Europa à beira de uma onda de revoluções, e dois alemães de vinte e poucos anos, Marx e Engels, escrevem a pedido de uma liga de operários um texto para explicar o que ela defende. Não é um tratado. É um panfleto, feito para ser lido em voz alta, e isso explica o tom: frases curtas, imagens fortes, começando por um espectro que ronda a Europa e terminando com o chamado aos proletários de todos os países.

A ideia central é que a história é a história da luta de classes. Em cada época, quem tem os meios de produzir e quem só tem o próprio trabalho. Na deles, burguesia e proletariado. O que me surpreendeu foi o primeiro capítulo, que é quase um elogio à burguesia. Marx diz que ela fez mais em cem anos do que todas as gerações anteriores juntas: derrubou a nobreza, criou o mercado mundial, mudou tudo o tempo todo. Tem a frase mais famosa do livro ali, sobre tudo que é sólido se desmanchando no ar. Lida em 2025, parece descrição de globalização e de tecnologia, e foi escrita antes da lâmpada elétrica.

Depois vem o que ele acha que acontece em seguida: a burguesia, ao criar o proletariado, cria quem vai derrubá-la. Aí entra a parte do programa, com dez medidas, algumas que hoje soam radicais, outras que viraram senso comum, como imposto progressivo e escola pública gratuita. E um capítulo final em que ele briga com os outros socialismos da época, que é a parte mais datada.

O que fica, para mim, não é a conclusão. Boa parte do que ele previu não aconteceu como previu, e o que foi feito em nome do livro no século XX é outra conversa, longa e triste. O que fica é o método: olhar para quem produz, quem fica com o resultado e o que isso faz com o resto. Dá para usar esse olhar sem ser comunista. Dá até para usar contra o comunismo. Mas é difícil discutir desigualdade sem passar por aqui, e é melhor passar lendo do que ouvindo falar.


Compartilhe este artigo:

Comentários

Os comentários ficam no GitHub Discussions; entre com sua conta do GitHub para participar.


Artigo anterior
A Arte da Guerra: li, gostei, e preciso reler
Próximo artigo
Apologia de Sócrates: o discurso de quem não pediu desculpa