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Ignorância, de Peter Burke: o que a gente não sabe também tem história (leitura pela metade)

Ignorância: uma história global, de Peter Burke (2023)

Um historiador do conhecimento resolveu escrever a história do contrário. Parei no meio, mas a primeira metade já mudou o jeito como uso a palavra.

Aviso: pausei na metade. Vou terminar e atualizar aqui. Mas a primeira parte fecha uma ideia inteira, então registro.

Peter Burke passou a vida escrevendo sobre a história do conhecimento: como ele é produzido, guardado, espalhado. Neste livro ele vira o espelho. Se o conhecimento tem história, a ignorância também tem. Quem não sabia o quê, em que época, e por quê. E a resposta quase nunca é “porque ainda não tinham descoberto”. Quase sempre tem alguém interessado em que não se soubesse.

A primeira coisa que o livro faz é tirar a ignorância do lugar de simples ausência. Tem a ignorância de quem não sabe que não sabe, a de quem sabe que não sabe, e a mais interessante, a de quem prefere não saber. Burke usa o esquema que ficou famoso na boca de um político americano, dos desconhecidos conhecidos e dos desconhecidos desconhecidos, e mostra que a ideia é bem mais velha. Sócrates, dizendo que só sabia que nada sabia. Nicolau de Cusa, no século XV, falando em “douta ignorância”: a ignorância de quem estudou o bastante para saber o tamanho do que falta.

Depois ele vai por áreas, e é aí que o livro fica bom. Ignorância na religião, onde não saber certas coisas era virtude e saber era pecado. Na ciência, onde cada descoberta revela mais o que não se sabia do que o que se sabia. Nos mapas, que durante séculos tinham espaços em branco, e depois pararam de ter, não porque o mundo foi todo conhecido, mas porque ficou feio admitir. E o capítulo sobre as mulheres, mantidas ignorantes de propósito durante séculos, com teoria e tudo para justificar.

O que mais me pegou até aqui é a ideia de ignorância fabricada. Burke cita a indústria do tabaco, que durante décadas financiou dúvida sobre o que ela mesma já sabia. Não precisa mentir. Basta produzir incerteza suficiente para que ninguém se mexa. Lendo em 2026, com fake news e algoritmo, parece que ele está descrevendo a semana passada.

Ainda não cheguei na segunda parte, sobre as consequências: guerras perdidas por ignorância, negócios, desastres, segredos. Quando chegar, conto. Por enquanto fica a lição: ignorância não é o que vem antes do conhecimento. Muitas vezes é o que alguém construiu no lugar dele.


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