Schopenhauer listou os truques que as pessoas usam para vencer uma discussão sem ter razão. Serve como manual e, principalmente, como antídoto.
Este livro é um manual, então o post vai no formato de manual. Schopenhauer, irritado com a forma como as discussões realmente acontecem, anotou os truques que as pessoas usam para ter razão sem estar certas. Ele chama isso de dialética erística: a arte de vencer a discussão, independentemente da verdade. Não é um elogio. É um catálogo, meio cínico, meio divertido, e quase todo estratagema você já viu numa reunião, numa mesa de bar ou numa rede social esta semana.
Vai cada um com o objetivo em uma linha e, quando cabe, um exemplo pequeno. A numeração é a do livro.
- Ampliação. Esticar o que o outro disse além do que ele disse, para refutar a versão esticada. Ex.: “você disse que o processo tem falhas” vira “então você acha que o processo é inútil”.
- Homonímia. Usar uma palavra que tem dois sentidos e trocar de sentido no meio. Ex.: discutir “liberdade” ora como direito, ora como falta de regra.
- Do relativo ao absoluto. Tomar uma afirmação feita num contexto como se valesse sempre. Ex.: “funciona para equipes pequenas” vira “você disse que funciona”.
- Esconder o destino. Fazer o outro aceitar premissas soltas, sem mostrar aonde elas levam, e fechar a conclusão no fim.
- Premissas falsas que ele aceita. Se a verdade não convence, usar o que o outro acredita, mesmo que seja falso, para chegar à sua conclusão.
- Petição de princípio disfarçada. Dar o que se quer provar como já provado, só mudando o nome.
- Perguntas em cascata. Perguntar muito, rápido e fora de ordem, para que não se perceba o que você está montando.
- Irritar. Deixar o outro com raiva; com raiva ninguém julga direito.
- Perguntas embaralhadas. Fazer as perguntas fora da ordem lógica, para esconder o plano.
- Perguntar o contrário. Se o outro nega tudo por sistema, perguntar o oposto do que você quer que ele admita.
- Indução apressada. Admitidos alguns casos, dar a regra geral como aceita sem perguntar.
- Nomes favoráveis. Escolher a palavra que já carrega o julgamento. Ex.: “reforma” ou “corte”, “investimento” ou “gasto”, conforme o lado.
- Oferecer o extremo. Apresentar a tese oposta de forma exagerada, para que a sua pareça a opção razoável.
- Proclamar vitória. Depois de algumas respostas, anunciar a conclusão como provada, mesmo que não decorra.
- Tese de reserva. Se a sua tese é difícil, propor outra, verdadeira mas não óbvia; se ele rejeita, mostre o absurdo; se aceita, use.
- Contra a pessoa. Mostrar que a tese do outro contradiz algo que ele mesmo já disse ou fez. Ex.: “mas você aprovou isso no mês passado”.
- Distinção sutil. Quando um contraexemplo aparece, inventar uma distinção fina que o deixa de fora.
- Interromper. Se a discussão vai mal, mudar o rumo, cortar, levar para outro lado.
- Fugir para o geral. Se não dá para responder ao caso concreto, responder sobre o assunto em geral.
- Concluir por ele. Com as premissas admitidas, tirar você mesmo a conclusão, sem dar tempo.
- Sofisma contra sofisma. Se o outro usa um truque, responder com outro em vez de denunciar.
- Acusar de petição de princípio. Recusar uma premissa dizendo que ela já contém a conclusão, mesmo que não contenha.
- Provocar o exagero. Contradizer para que o outro, irritado, exagere a própria tese, e aí refutar o exagero.
- Forçar consequências. Derivar da tese do outro conclusões absurdas que ela não implica.
- Um contraexemplo. Para derrubar uma generalização, basta um caso contrário. Ex.: “todo sistema distribuído precisa de X” cai com um que não precisa.
- Virar o argumento. Usar o argumento do outro contra ele. Ex.: “é uma criança, não sabe” responde-se “por isso mesmo precisa aprender”.
- Insistir onde dói. Se um argumento irritou o outro, é sinal de ponto fraco: insista nele.
- Para a plateia. Fazer uma objeção fraca mas que o público entende e ri, quando o público não domina o assunto.
- Diversão. Mudar de assunto na hora de perder, de preferência para algo que atinja o outro.
- Autoridade. Citar uma autoridade que o outro respeita, em vez de argumentar. Vale citar fora de contexto.
- Fingir não entender. “Isso é profundo demais para mim”, dando a entender que é absurdo.
- Rotular. Enfiar a tese numa categoria malvista e pronto. Ex.: “isso é coisa de consultoria”, “isso é ideologia”.
- Na teoria, sim; na prática, não. Aceitar o argumento e negar a aplicação, sem explicar por quê.
- Pressionar o silêncio. Se o outro desvia de uma pergunta, é ali que está o problema: continue nela.
- Interesse em vez de razão. Mostrar que a tese do outro prejudica os interesses dele, ou do público. Ninguém defende o que lhe custa.
- Jargão. Atordoar com palavras difíceis e sem sentido. Funciona com quem tem medo de perguntar.
- Refutar a prova, não a tese. Se o outro está certo mas provou mal, destrua a prova e dê a tese como derrubada.
- Ofender. Quando tudo falhou, partir para o ataque pessoal. É o último e, segundo ele, o mais usado.
O que eu levo do livro não é o manual, é o reconhecimento. Depois de ler, fica difícil não ver o número do estratagema aparecendo em cima da cabeça de quem está falando. Inclusive da minha.
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