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A Arte de Ter Razão: os 38 estratagemas de Schopenhauer, um por linha

A Arte de Ter Razão, de Arthur Schopenhauer (1864)

Schopenhauer listou os truques que as pessoas usam para vencer uma discussão sem ter razão. Serve como manual e, principalmente, como antídoto.

Este livro é um manual, então o post vai no formato de manual. Schopenhauer, irritado com a forma como as discussões realmente acontecem, anotou os truques que as pessoas usam para ter razão sem estar certas. Ele chama isso de dialética erística: a arte de vencer a discussão, independentemente da verdade. Não é um elogio. É um catálogo, meio cínico, meio divertido, e quase todo estratagema você já viu numa reunião, numa mesa de bar ou numa rede social esta semana.

Vai cada um com o objetivo em uma linha e, quando cabe, um exemplo pequeno. A numeração é a do livro.

  1. Ampliação. Esticar o que o outro disse além do que ele disse, para refutar a versão esticada. Ex.: “você disse que o processo tem falhas” vira “então você acha que o processo é inútil”.
  2. Homonímia. Usar uma palavra que tem dois sentidos e trocar de sentido no meio. Ex.: discutir “liberdade” ora como direito, ora como falta de regra.
  3. Do relativo ao absoluto. Tomar uma afirmação feita num contexto como se valesse sempre. Ex.: “funciona para equipes pequenas” vira “você disse que funciona”.
  4. Esconder o destino. Fazer o outro aceitar premissas soltas, sem mostrar aonde elas levam, e fechar a conclusão no fim.
  5. Premissas falsas que ele aceita. Se a verdade não convence, usar o que o outro acredita, mesmo que seja falso, para chegar à sua conclusão.
  6. Petição de princípio disfarçada. Dar o que se quer provar como já provado, só mudando o nome.
  7. Perguntas em cascata. Perguntar muito, rápido e fora de ordem, para que não se perceba o que você está montando.
  8. Irritar. Deixar o outro com raiva; com raiva ninguém julga direito.
  9. Perguntas embaralhadas. Fazer as perguntas fora da ordem lógica, para esconder o plano.
  10. Perguntar o contrário. Se o outro nega tudo por sistema, perguntar o oposto do que você quer que ele admita.
  11. Indução apressada. Admitidos alguns casos, dar a regra geral como aceita sem perguntar.
  12. Nomes favoráveis. Escolher a palavra que já carrega o julgamento. Ex.: “reforma” ou “corte”, “investimento” ou “gasto”, conforme o lado.
  13. Oferecer o extremo. Apresentar a tese oposta de forma exagerada, para que a sua pareça a opção razoável.
  14. Proclamar vitória. Depois de algumas respostas, anunciar a conclusão como provada, mesmo que não decorra.
  15. Tese de reserva. Se a sua tese é difícil, propor outra, verdadeira mas não óbvia; se ele rejeita, mostre o absurdo; se aceita, use.
  16. Contra a pessoa. Mostrar que a tese do outro contradiz algo que ele mesmo já disse ou fez. Ex.: “mas você aprovou isso no mês passado”.
  17. Distinção sutil. Quando um contraexemplo aparece, inventar uma distinção fina que o deixa de fora.
  18. Interromper. Se a discussão vai mal, mudar o rumo, cortar, levar para outro lado.
  19. Fugir para o geral. Se não dá para responder ao caso concreto, responder sobre o assunto em geral.
  20. Concluir por ele. Com as premissas admitidas, tirar você mesmo a conclusão, sem dar tempo.
  21. Sofisma contra sofisma. Se o outro usa um truque, responder com outro em vez de denunciar.
  22. Acusar de petição de princípio. Recusar uma premissa dizendo que ela já contém a conclusão, mesmo que não contenha.
  23. Provocar o exagero. Contradizer para que o outro, irritado, exagere a própria tese, e aí refutar o exagero.
  24. Forçar consequências. Derivar da tese do outro conclusões absurdas que ela não implica.
  25. Um contraexemplo. Para derrubar uma generalização, basta um caso contrário. Ex.: “todo sistema distribuído precisa de X” cai com um que não precisa.
  26. Virar o argumento. Usar o argumento do outro contra ele. Ex.: “é uma criança, não sabe” responde-se “por isso mesmo precisa aprender”.
  27. Insistir onde dói. Se um argumento irritou o outro, é sinal de ponto fraco: insista nele.
  28. Para a plateia. Fazer uma objeção fraca mas que o público entende e ri, quando o público não domina o assunto.
  29. Diversão. Mudar de assunto na hora de perder, de preferência para algo que atinja o outro.
  30. Autoridade. Citar uma autoridade que o outro respeita, em vez de argumentar. Vale citar fora de contexto.
  31. Fingir não entender. “Isso é profundo demais para mim”, dando a entender que é absurdo.
  32. Rotular. Enfiar a tese numa categoria malvista e pronto. Ex.: “isso é coisa de consultoria”, “isso é ideologia”.
  33. Na teoria, sim; na prática, não. Aceitar o argumento e negar a aplicação, sem explicar por quê.
  34. Pressionar o silêncio. Se o outro desvia de uma pergunta, é ali que está o problema: continue nela.
  35. Interesse em vez de razão. Mostrar que a tese do outro prejudica os interesses dele, ou do público. Ninguém defende o que lhe custa.
  36. Jargão. Atordoar com palavras difíceis e sem sentido. Funciona com quem tem medo de perguntar.
  37. Refutar a prova, não a tese. Se o outro está certo mas provou mal, destrua a prova e dê a tese como derrubada.
  38. Ofender. Quando tudo falhou, partir para o ataque pessoal. É o último e, segundo ele, o mais usado.

O que eu levo do livro não é o manual, é o reconhecimento. Depois de ler, fica difícil não ver o número do estratagema aparecendo em cima da cabeça de quem está falando. Inclusive da minha.


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