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A Felicidade É Inútil: e é por isso que ela importa

A Felicidade É Inútil, de Clóvis de Barros Filho (2019)

O título é provocação, e a provocação é séria: a felicidade não serve para nada, porque é ela que dá sentido ao resto.

A primeira reação ao título é achar que o Clóvis vai dizer que ser feliz não vale a pena. É o contrário. Inútil, aqui, é no sentido literal: a felicidade não é útil para nada, porque não é meio para coisa nenhuma. Tudo o que a gente faz, trabalho, dinheiro, estudo, academia, é útil porque serve a outra coisa. A felicidade não serve. Ela é o fim. E uma sociedade que só valoriza o que é útil, que pergunta “para que serve?” antes de qualquer coisa, acaba sem lugar para o que importa.

A partir daí o livro faz uma distinção que o Clóvis repete em quase tudo que escreve, mas que aqui aparece com mais calma: alegria e felicidade não são a mesma coisa. Alegria é o momento, a sensação de potência, de estar conseguindo, a ideia que ele pega de Espinosa. Felicidade é outra coisa, mais rara: é olhar para a vida e reconhecer que ela está boa, mesmo com o que falta. Dá para ter muitas alegrias e nenhuma felicidade, e é o que acontece com quem transforma a vida em trabalho e boleto, com alegrias pequenas espalhadas para aguentar.

O que me pegou foi a crítica à felicidade como ferramenta. Hoje ela é vendida como meio: seja feliz para render mais, para adoecer menos, para vender melhor. O Clóvis diz que no momento em que a felicidade vira útil, ela deixou de ser felicidade e virou mais uma obrigação de desempenho. É quase o mesmo ponto da Sociedade do Cansaço, vindo de outro lado.

Não é um livro de sistema. É o Clóvis falando, como nas palestras, com repetição, humor e exemplos de cotidiano, e isso pode cansar quem já leu os outros. Mas a ideia central é das melhores dele: parar de perguntar para que serve e começar a perguntar se vale.


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