Camus explica em ensaio o que O Estrangeiro mostra em romance: a vida não tem sentido pronto, e isso não é motivo para desistir dela.
Li o Mito de Sísifo depois de O Estrangeiro, e foi o jeito certo: o romance deixa a pergunta no ar e o ensaio responde.
O livro abre com uma frase que assusta. Camus diz que só existe um problema filosófico realmente sério, que é o suicídio. Decidir se a vida vale ou não a pena ser vivida é responder à pergunta fundamental da filosofia; o resto vem depois. Não é mórbido, é honesto. Se a vida não tem sentido, por que continuar?
O ponto de partida é o que ele chama de absurdo. A gente precisa que a vida faça sentido, e o mundo não responde. O absurdo não está no mundo nem em nós, está no encontro dos dois: a nossa pergunta e o silêncio do outro lado. Dá para fugir disso de dois jeitos. Um é o suicídio, que elimina quem pergunta. O outro é o que Camus chama de salto: acreditar em algo (Deus, uma razão maior, um sentido pronto) para a pergunta parar de doer. Ele recusa os dois. Fugir não resolve, só muda de assunto.
O que sobra é viver com o absurdo, sabendo. E é aí que entra Sísifo, condenado pelos deuses a empurrar uma pedra montanha acima para sempre, vendo a pedra rolar de volta toda vez. Camus se interessa pelo momento da descida. Sísifo desce sabendo o que o espera, e é nessa hora que ele é maior que o castigo, porque tem consciência dele. A luta para chegar ao cume, diz Camus, basta para encher o coração de um homem. A última frase do livro é a que todo mundo cita: é preciso imaginar Sísifo feliz.
O que fica para mim é simples. Ninguém vai entregar um sentido pronto, e esperar por isso é deixar a vida passar. O sentido a gente constrói na descida, escolhendo voltar para a pedra. Meursault, em O Estrangeiro, só descobre isso na cela. Sísifo descobre a cada volta.
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