Jessé Souza tenta explicar por que parte dos mais pobres passou a votar na direita. Uma leitura para um país dividido ao meio.
A gente vive um Brasil partido em dois. Lula de um lado, Bolsonaro do outro, e cada família com pelo menos um almoço de domingo estragado por causa disso. Em ano de eleição piora: vira esquerda contra direita, cada lado convencido de que o outro é burro ou mal-intencionado, e a conversa acaba antes de começar. Foi nesse clima que li Pobre de Direita, e foi o que me fez gostar do livro: ele tenta entender em vez de xingar.
A pergunta do Jessé Souza é a que muita gente faz baixinho: por que tantas pessoas pobres passaram a apoiar a direita, se é a esquerda que diz falar por elas? A resposta fácil é dizer que foram enganadas. O autor recusa isso. Para ele, quem acha que o pobre decide só pelo bolso não entendeu o pobre.
A tese dele é que a raiz está na humilhação. O Brasil veio da escravidão e nunca parou de tratar o pobre como gente de segunda. O subtítulo fala em “bastardos”: os filhos que o país nunca reconheceu como seus. E quem é humilhado a vida inteira não reage necessariamente contra quem o humilha. Muitas vezes passa a admirar quem está em cima e a se afastar de quem está embaixo, para não ser confundido com ele. Daí a religião ter tanto peso no livro: as igrejas evangélicas, segundo o autor, ofereceram ao pobre o que mais ninguém ofereceu, que é dignidade e pertencimento. A esquerda, na leitura dele, entregou renda e achou que bastava. Não bastou, porque o que faltava era respeito.
Uma coisa que eu acrescentaria à conta do livro é de onde veio o combustível. A polarização brasileira não foi inventada aqui. O modelo de campanha movida a fake news nasceu nos Estados Unidos, ficou famoso na eleição americana de 2016, com redes sociais, dados de usuários do Facebook e o escândalo da Cambridge Analytica, e foi exportado como receita pronta. Chegou ao Brasil em 2018 por WhatsApp, e nunca mais saiu. Esse tipo de desonestidade, mentira fabricada em escala para dividir, tem berço, e o berço é americano. Quando o Jessé fala da ferida da humilhação, vale lembrar que alguém aprendeu a lucrar com essa ferida, e aprendeu lá fora.
Dá para discordar de muita coisa. O livro tem lado, não esconde isso, e às vezes generaliza onde eu queria mais dado. Mas o recado que fica serve para os dois lados da briga: ninguém muda de ideia sendo chamado de idiota. Se o voto do outro nasce de uma ferida, rir dele só aprofunda a ferida. Tirando o nome dos candidatos, o que sobra é uma pergunta sobre como a gente trata quem está abaixo, e essa vale para qualquer eleição.
Não é um livro para fechar a discussão. É um livro para conseguir ter a discussão.
Comentários
Os comentários ficam no GitHub Discussions; entre com sua conta do GitHub para participar.