Pular para o conteúdo
Vailati
Voltar

Sociedade do Cansaço: ninguém precisa mais nos explorar

Sociedade do Cansaço, de Byung-Chul Han (2010)

Byung-Chul Han, em pouco mais de cem páginas, explica por que a gente vive exausto sem ninguém mandar.

É um livro pequeno, de um filósofo coreano que vive na Alemanha. Eu parava a cada página para reconhecer alguém. Quase sempre eu.

A ideia central é uma troca de regime. O século passado foi a sociedade da disciplina: fábrica, quartel, hospital, escola, um “não pode” em cada parede, e alguém de fora vigiando. O nosso é a sociedade do desempenho. Ninguém proíbe nada. O verbo mudou de “não pode” para “você consegue”. Parece liberdade, e é aí que está o truque. Quando o chefe é você mesmo, não existe hora de sair. O sujeito de desempenho se explora sozinho, e Han diz que essa exploração é mais eficiente que qualquer outra, porque vem acompanhada da sensação de ser livre.

A consequência é a doença típica da época. Antes eram infecções, coisa que vinha de fora e que o corpo rejeitava. Hoje é burnout, depressão, déficit de atenção: doenças de excesso, não de falta. Excesso de positividade, de estímulo, de possibilidade. A gente não adoece do que nos é negado, adoece do que nos é oferecido demais.

Dois trechos me pegaram. O primeiro é sobre a atenção. Han diz que o multitarefa não é evolução, é regressão: é o estado de atenção de um animal no mato, que come vigiando, porque qualquer distração mata. A atenção profunda, a que produz cultura, pensamento e qualquer coisa que preste, precisa de tédio, e tédio é o que a gente eliminou primeiro. O segundo é sobre o próprio cansaço. Existe o cansaço que isola, o de quem chega em casa sem conseguir falar, e existe outro, que ele chama de cansaço fundamental, que desarma e aproxima, como o de um fim de tarde depois de um dia bem gasto. O livro é um elogio desse segundo cansaço, e uma denúncia de que o primeiro ocupou o lugar dele.

Trabalho com tecnologia, onde “você consegue” é slogan de empresa, de curso, de rede social. Li o livro com a sensação de estar sendo descrito. Não dá soluções, Han não é desse tipo. Mas nomear a coisa já ajuda: cansaço não é fraqueza, é o produto do sistema funcionando como foi desenhado.


Compartilhe este artigo:

Comentários

Os comentários ficam no GitHub Discussions; entre com sua conta do GitHub para participar.


Artigo anterior
A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado: Engels conta de onde veio o que parece natural
Próximo artigo
O Dilema das Galinhas Felizes: quando ser feliz vira obrigação