Pular para o conteúdo
Vailati
Voltar

A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado: Engels conta de onde veio o que parece natural

A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, de Friedrich Engels (1884)

Família, propriedade e Estado parecem sempre ter existido. Engels reúne a antropologia do século XIX para mostrar que surgiram juntos, e por um motivo só.

Antes de tudo, um aviso sobre o que este livro é. O nome de Engels na capa faz muita gente ler como panfleto, e não é. É uma síntese da antropologia do século XIX, feita por alguém que leu os pesquisadores de ponta da época e organizou o que eles tinham descoberto. As evidências não são dele. São de Lewis Henry Morgan, antropólogo americano que passou anos entre os iroqueses e publicou A Sociedade Antiga em 1877; de Johann Jakob Bachofen, jurista suíço que em 1861 escreveu O Direito Materno a partir de fontes gregas e romanas; e do escocês John McLennan, que estudou o casamento nas sociedades antigas. Engels parte do trabalho deles, e das anotações que Marx tinha feito sobre Morgan, e acrescenta a interpretação. Vale separar as duas coisas ao ler: o que é dado dos pesquisadores e o que é conclusão do autor.

A pergunta é a do título: de onde vieram a família como conhecemos, a propriedade privada e o Estado? E a resposta que ele monta, em cima de Morgan, é que nenhum dos três é natural. Os três apareceram no mesmo momento da história e pela mesma razão: quando passou a existir excedente, alguém precisou garantir quem ficava com ele.

A parte sobre a família é a mais surpreendente, e é a que mais deve a Bachofen e a Morgan. Eles descreveram formas anteriores de organização, baseadas no grupo e na linha materna, em que a descendência se contava pela mãe. Engels pega isso e argumenta que a família monogâmica, com o pai no comando, nasceu quando surgiu riqueza para herdar. Para ter certeza de quem eram os filhos, foi preciso controlar a mulher. Ele chama isso de a grande derrota histórica do sexo feminino, e foi escrito em 1884, décadas antes de o assunto virar debate.

Depois vem a propriedade, que separa a sociedade em quem tem e quem não tem, e o Estado, que ele define como o aparelho que surge para manter essa separação funcionando sem que ela exploda. Aqui já é mais Engels do que Morgan, e é a parte em que ele afirma mais do que demonstra. Pode-se discordar, e muita gente discorda, mas é uma definição que obriga a pensar sobre o que o Estado faz pela gente e para quem.

O livro envelheceu em parte. A antropologia de Morgan foi revista e várias etapas que ele descreve não se sustentam como ele contou; Bachofen, idem. Mas a pergunta continua boa, e ela não tem partido: o que, do que a gente chama de natural, é só antigo? Dá para ler sem ser comunista, do mesmo jeito que se lê Darwin sem ser biólogo. É história das instituições, contada por quem leu os cientistas da época e tirou as próprias conclusões, e cabe ao leitor fazer o mesmo.


Compartilhe este artigo:

Comentários

Os comentários ficam no GitHub Discussions; entre com sua conta do GitHub para participar.


Artigo anterior
Filosofia ao Pé do Ouvido: felicidade, ética e amizade em conversa
Próximo artigo
Sociedade do Cansaço: ninguém precisa mais nos explorar