Um funcionário demitido escreve um manual para voltar ao emprego. Quinhentos anos depois, é o livro mais mal falado e mais lido da política.
O contexto explica muito. Em 1513, Maquiavel era um funcionário de Florença que tinha perdido o cargo, sido preso e torturado quando os Médici voltaram ao poder. Exilado numa fazenda, escreveu um livro curto para dedicar ao novo governante, na esperança de ser chamado de volta. Não foi. O livro só saiu depois da morte dele, e a reputação que o nome ganhou, maquiavélico, é a de quem faz qualquer coisa pelo poder.
Lido de verdade, é outra coisa. O Príncipe é uma descrição fria de como o poder é conquistado e mantido, com exemplos da Itália da época e da história antiga. Maquiavel não diz como o mundo deveria ser. Diz como ele é, e o que acontece com quem governa fingindo o contrário. Daí as frases que ficaram: que é mais seguro ser temido que amado, se não puder ser os dois; que o príncipe precisa saber ser leão e raposa, força e astúcia; que ele deve parecer ter as virtudes, e tê-las quando puder, mas saber abandoná-las quando a necessidade exigir.
O que me pegou foi a honestidade sobre a sorte. Ele chama de fortuna e diz que ela manda em metade das nossas ações, e que a outra metade é o que ele chama de virtù: não virtude no sentido moral, mas capacidade, iniciativa, a disposição de agir antes que a correnteza decida. A imagem é a de um rio que inunda tudo quando cheio, mas que se pode conter com diques construídos no tempo seco. Vale para governar, vale para qualquer coisa.
Não é um livro bonito, e não tenta ser. É um livro sobre o que as pessoas fazem quando o que está em jogo é grande. Dá para discordar da moral, mas é difícil dizer que ele está errado sobre as pessoas. É por isso que os dois livros seguintes que li partem dele.
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