Um professor de filosofia alemão vai ao Japão aprender zen e descobre que o caminho é o arco. O livro é sobre o que acontece quando você para de tentar.
Eugen Herrigel era professor de filosofia na Alemanha e aceitou uma cadeira numa universidade japonesa, nos anos 1920, com um objetivo secreto: entender o zen por dentro. Disseram a ele que isso não se aprende lendo, que precisava de uma arte. Escolheu o arco e passou quase seis anos como aluno do mestre Awa Kenzo. O livro, de menos de cem páginas, é o relato desses anos, e é um dos textos mais lidos sobre zen no Ocidente.
O que ele conta é uma sequência de frustrações. O primeiro ano inteiro é só para aprender a respirar e a tensionar o arco sem usar a força dos braços. Herrigel não entende como se pode puxar um arco de dois metros sem força, e o mestre responde que ele tem que puxar com o espírito. Depois vem o problema de soltar a flecha. Toda vez que ele decide soltar, o tiro sai errado. O mestre diz que ele não deve soltar: a flecha deve cair da mão como a neve cai de uma folha de bambu, quando o peso é demais. “Isso” atira, diz o mestre, não você. Herrigel passa anos nisso, chega a trapacear tentando soltar devagar com o polegar, e é quase expulso.
A cena que todo mundo cita é a do tiro no escuro. Herrigel duvida que acertar o alvo possa não ter nada a ver com mirar, e o mestre, à noite, com o alvo iluminado só por uma vela, atira duas flechas: a primeira no centro, a segunda rachando a primeira. Não diz “viu?”. Diz que não foi ele quem atirou.
Li com uma reserva, e é bom deixar registrada: há quem mostre que Herrigel entendia pouco japonês, que o intérprete inventou parte do que o mestre disse, e que o zen do livro é mais alemão que japonês. Pode ser. Ainda assim, o que ele descreve, o esforço que atrapalha, o ego que quer o resultado e por isso o estraga, a técnica que só funciona quando deixa de ser pensada, é verdadeiro em qualquer coisa que exija prática. Quem já passou anos tentando aprender algo reconhece.
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