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O Vermelho e o Negro: a ambição como profissão

O Vermelho e o Negro, de Stendhal (1830)

Julien Sorel quer subir na vida. O livro inteiro é o preço disso.

Até agora, O Vermelho e o Negro é o livro que mais me impressionou. É de 1830, mas as vaidades são as mesmas de hoje: o prefeito que precisa ser o mais importante da cidade, o salão onde todo mundo mede todo mundo, a carreira escolhida pelo que rende e não pelo que se acredita. Troca o cenário e está tudo aí.

A França do livro é a da Restauração. Napoleão caiu em 1815, os Bourbon voltaram ao trono e, com eles, a nobreza e a Igreja retomaram o poder que a Revolução tinha tirado. O subtítulo é “Crônica de 1830”, o ano em que o livro sai e em que Paris derruba o rei de novo. Stendhal escreve no meio disso: uma sociedade que fala de honra e de religião, vive de intriga e dinheiro, e vigia quem tenta subir sem ter nascido em cima.

É nesse cenário que entra Julien Sorel, filho de um dono de serraria em Verrières, uma cidadezinha de província. Ele lê escondido as memórias de Napoleão e sabe o Novo Testamento de cor, em latim, não por fé, mas porque decorar o livro é o passaporte. O título vem daí. O vermelho é o uniforme do exército de Napoleão, onde um filho de camponês podia virar general por mérito; esse caminho fechou com a Restauração. O negro é a batina, a Igreja, o único caminho que sobrou para um rapaz pobre e inteligente chegar a algum lugar. Os dois lados dividem a vida de Julien o tempo todo: admira o imperador em segredo e veste a batina em público, com a hipocrisia de quem sabe que só um dos dois ainda paga.

O que me prendeu foi a riqueza de detalhes e a complexidade dos personagens. Stendhal narra cada cálculo de Julien: ele decide seduzir a senhora de Rênal, esposa do patrão, como quem cumpre um dever consigo mesmo, e se surpreende ao gostar dela. No seminário em Besançon, descobre que ser o melhor aluno é um erro, porque chama atenção. Em Paris, como secretário do marquês de La Mole, conquista Mathilde num jogo de orgulho em que os dois se desprezam e se desejam em turnos. Ninguém ali é de uma peça só, nem ele.

E é impressionante acompanhar a transformação do jovem Julien ao longo da história, e as surpresas que ele mesmo tem com as próprias descobertas. O rapaz que entra calculando tudo não é o mesmo que chega ao fim. Uma carta da senhora de Rênal, escrita sob pressão do confessor, derruba o casamento com Mathilde. Julien atira nela, ela sobrevive, e no julgamento, em vez de se defender, ele diz que está sendo condenado por ser pobre e ter ousado subir. Nas semanas da prisão, pela primeira vez, ele para de calcular.

Livro longo, com um narrador que interrompe quando quer e que não perdoa ninguém, nem o protagonista. Mesmo assim, é dos que ficam. É um livro que todos deveriam ler, sem dúvida alguma.


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